Você sabe o que são transtornos alimentares e como identificá-los?
Terça-feira, 02 de Junho de 2026 às 11h28Especialista alerta para a necessidade de diagnóstico precoce, rede de apoio e acompanhamento multidisciplinar
O espelho, muitas vezes, reflete uma imagem distorcida pela dor. O prato de comida, que deveria ser sinônimo de nutrição e afeto, transforma-se em um campo de batalha silencioso. Nesse cenário complexo e doloroso, se desenvolvem os transtornos alimentares, doenças psiquiátricas graves. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), eles afetam mais de 70 milhões de pessoas globalmente. No Brasil, estima-se cerca de 11 milhões de indivíduos convivendo com algum tipo de distúrbio alimentar.
Em 2 de junho, celebra-se o Dia Mundial de Conscientização dos Transtornos Alimentares, data criada em 2015 pela Academy for Eating Disorders. O objetivo é quebrar estigmas, disseminar informações baseadas em evidências científicas e, sobretudo, alertar para a importância do diagnóstico precoce e do apoio familiar.
Se no passado essas condições eram frequentemente minimizadas, atualmente, a ciência é categórica. São doenças multifatoriais, com raízes biológicas, psicológicas e socioculturais, que exigem tratamento sério e especializado.
Esses transtornos são caracterizados por alterações persistentes no comportamento alimentar, impactando negativamente a saúde física, as emoções e a capacidade de funcionamento em áreas importantes da vida. Eles vão muito além de dietas restritivas ou preocupações estéticas, pois são condições que aprisionam o indivíduo em um ciclo de sofrimento. Os tipos mais comuns incluem:
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Anorexia nervosa: caracterizada por restrição alimentar severa, medo intenso de ganhar peso e distorção grave da imagem corporal. A pessoa enxerga-se com sobrepeso mesmo quando está perigosamente abaixo do peso ideal. É o transtorno psiquiátrico com maior taxa de mortalidade;
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Bulimia nervosa: envolve episódios recorrentes de compulsão alimentar (ingestão de grandes quantidades de comida em pouco tempo, com sensação de perda de controle), seguidos de comportamentos compensatórios inadequados para evitar o ganho de peso, como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes ou exercícios físicos excessivos;
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Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP): semelhante à bulimia nos episódios de ingestão exagerada e descontrolada, mas sem os comportamentos compensatórios regulares. Frequentemente leva ao ganho de peso e está associado a sentimentos de profunda culpa e vergonha.
O tratamento dos transtornos alimentares não é simples nem rápido. Exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo psiquiatras, psicólogos, nutricionistas e, muitas vezes, educadores físicos. A recuperação passa pela reestruturação da relação do paciente com a comida e o próprio corpo.
Nesse contexto, o papel do nutricionista é fundamental para promover a reeducação alimentar sem o uso de dietas restritivas, que, frequentemente, atuam como gatilhos para os distúrbios. Manuela Marinho, nutricionista e responsável técnica da Clínica-Escola de Nutrição da UNINORTE, destaca a complexidade desse cuidado e ressalta que o tratamento vai muito além da prescrição de cardápios.
“O transtorno alimentar exige muita sensibilidade e um olhar integral sobre o paciente. Na Clínica-Escola de Nutrição, entendemos que cada indivíduo é único. O acompanhamento especializado é fundamental não apenas para garantir a adequação nutricional, mas para ajudar o paciente a reconstruir uma relação saudável e sem culpa com a alimentação. Precisamos desmistificar a comida como inimiga e trabalhar, junto com a equipe de psicologia e psiquiatria, para resgatar a qualidade de vida e a saúde física e mental dessas pessoas”, afirma Manuela.
O tratamento baseia-se em cinco pilares essenciais: avaliação psiquiátrica, para diagnóstico preciso e possível intervenção medicamentosa para comorbidades como ansiedade e depressão; acompanhamento psicológico, pois terapias ajudam a identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais; acompanhamento nutricional, que é focado na reeducação e no equilíbrio, sem restrições severas; orientação física, com sugestão de exercícios focados na saúde e não na estética; e rede de apoio. Nesse caso, o suporte familiar e de amigos é crucial para o paciente não se sentir isolado.
A prevenção, por sua vez, é um desafio coletivo. Envolve a promoção de um ambiente que valorize a diversidade de corpos e desencoraje a busca incessante por padrões estéticos irreais, frequentemente propagados pelas redes sociais. Evitar comentários sobre o peso ou a forma física alheia, cultivar uma relação equilibrada com a comida desde a infância e estar atento aos sinais de alerta, como isolamento social, mudanças bruscas de peso e obsessão por calorias, são passos fundamentais.
Foto: Magnific