ARTIGO – Formação médica exige um debate à altura do Brasil

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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2026 às 15h20

Janguiê Diniz*

A formação médica ganhou espaço no debate eleitoral, e isso é positivo. O Brasil precisa discutir que médicos quer formar, como garantir a qualidade desse processo e como superar as profundas desigualdades territoriais de acesso à saúde. O que não ajuda é simplificar e generalizar uma questão tão complexa.

Questionar a qualidade dos cursos é legítimo. Cobrar rigor também. O compromisso com uma boa formação precisa estar acima de qualquer interesse, seja em uma instituição pública ou particular. Mas reconhecer problemas e buscar soluções é muito diferente de desqualificar, de forma ampla, o trabalho realizado pelo setor privado.

As instituições particulares de educação superior têm papel essencial na formação de médicos e de outros profissionais de saúde que atendem a população em todas as regiões do Brasil. Por trás de cada curso existem professores, estudantes, hospitais, unidades de saúde e milhares de pessoas envolvidas nessa extensa jornada.

Reconhecer essa relevância não significa defender curso ruim nem uma expansão sem critérios. Significa compreender que o desafio brasileiro é maior do que simplesmente discutir se devem existir mais ou menos faculdades de Medicina.

O país ampliou o número de médicos nas últimas décadas, mas ainda convive com importantes vazios assistenciais e uma distribuição muito desigual desses profissionais. Grandes centros concentram médicos, especialistas e estruturas de saúde, enquanto municípios do interior e regiões mais vulneráveis enfrentam dificuldades para oferecer atendimento básico à população.

É nessa realidade que o debate ganha outra dimensão. Para uma mãe que espera meses por uma consulta para o filho, para uma pessoa idosa que precisa viajar para encontrar um especialista ou para a oferta de atenção primária à saúde em uma cidade distante dos grandes centros, o debate não é sobre educação pública ou particular. É sobre ter acesso a um profissional qualificado quando se precisa dele.

Por isso, a pergunta que deveríamos fazer é: como formar médicos cada vez melhores e, ao mesmo tempo, fazer com que eles cheguem aos lugares onde são mais necessários?

Responder a essa questão exige olhar para a qualidade da graduação, para a formação prática, para a residência médica, mas também para políticas públicas capazes de estimular a permanência desses profissionais fora dos grandes centros urbanos.

Em uma campanha presidencial, candidatos têm todo o direito de questionar modelos, apontar problemas e defender caminhos diferentes. Esse é o papel do debate democrático. Mas temas que afetam diretamente a vida das pessoas exigem uma contestação responsável e propostas à altura da sua complexidade.

A formação médica brasileira certamente pode e deve ser aprimorada. Problemas precisam ser identificados e corrigidos com seriedade. O que não podemos permitir é que generalizações apaguem o trabalho de instituições, professores, profissionais de saúde e estudantes comprometidos com uma formação de qualidade.

Afinal, o país possui um desafio bastante concreto: formar médicos cada vez melhores e fazer com que eles se estabeleçam onde os brasileiros mais precisam deles. É essa a discussão que precisa ganhar espaço no debate eleitoral.

*Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular; fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.